A mudança de cenário não transforma, por si só, um padrão. A transformação começa quando conseguimos responder de outra forma.

Perceber porque repetimos padrões exige olhar para as respostas que levamos connosco, mesmo quando mudam o trabalho, os lugares ou as relações.
Nos últimos quase dois meses, a minha vida mudou de cenário várias vezes. Passei a trabalhar a bordo da Viking, entre a Áustria e a Alemanha. Conheci cidades e paisagens novas, adaptei-me a horários diferentes e a dias que nem sempre correram como eu tinha imaginado. Continuei a acompanhar clientes, a escrever o meu livro e, no meio de tudo isto, vivi também mudanças importantes na minha vida afetiva.
À primeira vista, parecem capítulos sem ligação. O trabalho, as viagens, as consultas, o livro, as relações. Mas, enquanto escrevo sobre repetição humana, dou por mim a fazer uma pergunta: o que é que se repete quando tudo à nossa volta muda?
Porque repetimos os mesmos padrões em cenários diferentes?
Talvez não seja sempre a pessoa, o lugar ou a situação. Às vezes, é a pergunta que levamos connosco. A forma como procuramos segurança. O que fazemos quando sentimos intensidade. A maneira como reagimos à incerteza, ao cansaço, à possibilidade de sermos vistas ou de escolhermos algo novo.
Uma paisagem diferente não muda automaticamente a nossa forma de estar nela. Podemos atravessar países e continuar a levar connosco as mesmas respostas. Podemos mudar de trabalho, começar uma relação ou iniciar um projeto e, ainda assim, agir a partir de uma velha necessidade de provar, controlar, agradar ou fugir.

Mas o contrário também acontece: uma experiência familiar pode encontrar-nos num lugar interior diferente.
Estes meses não me deram uma resposta única. Deram-me situações concretas onde me pude observar. No trabalho, tive de aprender uma nova função e estar presente para pessoas que estavam também a viver a sua própria experiência de viagem. Nas consultas, continuei a acompanhar processos humanos enquanto reconhecia que também eu estou dentro da vida que estudo. E, ao escrever, percebi que não quero falar da repetição como quem a observa à distância. Quero escrever a partir do lugar onde a teoria encontra a escolha real.
Na vida afetiva, também fui confrontada com essa diferença: sentir uma ligação intensa não é o mesmo que encontrar disponibilidade; desejar alguém não obriga a perseguir essa pessoa e assumir uma relação não significa ter todas as garantias sobre o futuro. Significa escolher estar presente no que existe, com consciência e responsabilidade.
Não preciso de transformar as pessoas da minha vida em personagens para partilhar o que aprendi. O que me pertence contar é a mudança na forma como participo: consigo olhar para a intensidade sem a tomar automaticamente como prova, consigo reconhecer o desejo sem me abandonar nele e consigo escolher sem fingir que a incerteza desapareceu. Talvez seja aqui que a repetição começa a perder força. Não quando conseguimos prever tudo, nem quando deixamos de sentir medo ou desejo, mas quando já não entregamos a cada emoção o poder de decidir por nós.
Este é um axioma que começa a ganhar forma no meu livro:
A mudança de cenário não transforma, por si só, um padrão. A transformação começa quando conseguimos responder de outra forma.
Não escrevo isto como alguém que já chegou a um lugar definitivo. Escrevo como alguém que está a observar o próprio percurso enquanto o vive. Há dias em que a nova resposta é clara e em outros, ainda estou a aprender a reconhecê-la. E talvez a autenticidade também esteja aqui: não em apresentar uma versão acabada de nós, mas em sermos honestas sobre o processo, sem romantizar cada acontecimento nem fingir que já compreendemos tudo.
Para compreender porque repetimos padrões, vale a pena observar as respostas que surgem nas situações concretas da nossa vida. Se estás a atravessar uma fase de mudança, estas perguntas podem ajudar:
- O que mudou no cenário da minha vida e o que continua a repetir-se dentro de mim?
- Perante esta situação, estou a responder por escolha ou por familiaridade?
- Qual seria uma resposta nova, mesmo que pequena, que respeitasse melhor aquilo que hoje sei sobre mim?
Não é preciso encontrar uma grande conclusão em cada experiência. Às vezes, basta reparar no instante em que estamos prestes a repetir a resposta antiga e descobrir que, desta vez, existe outra possibilidade.
Três rios, três versões de mim
Em Passau, há um lugar onde se encontram três rios: o Danúbio, o Inn e o Ilz. Vêm de percursos diferentes e, mesmo depois de se juntarem, as suas águas ainda podem distinguir-se durante algum tempo. A confluência acontece antes de as diferenças deixarem de ser visíveis. Talvez tenha sido isso que me fez pensar nas três versões de mim que se têm encontrado nesta experiência.
Há a aprendiz, que entrou numa função nova, recebe orientações, faz perguntas e descobre como fazer coisas que ainda não sabe. Há a coach e a mulher que escreve, que continua a acompanhar pessoas e a procurar compreender o que sustenta os nossos padrões. E há a mulher que sente, deseja e se permite construir uma relação, mesmo sabendo que nenhuma escolha vem com garantias sobre o futuro.

Cada uma traz uma história e pede-me alguma coisa diferente. A aprendiz pede-me disponibilidade para não saber. A coach e a escritora pedem-me atenção e responsabilidade na forma como interpreto aquilo que observo. A mulher que ama pede-me presença: conseguir viver um encontro sem estar sempre a tentar antecipar o seu desfecho. E tenho percebido que nem sempre preciso de levar a mesma resposta para estes três lugares.
Posso ter experiência a acompanhar os outros e precisar de orientação numa função nova. Posso compreender um padrão e sentir-me tocada por ele. Posso estar segura de quem sou e, ainda assim, sentir vulnerabilidade quando alguém se aproxima. Reconhecer isto tem-me dado mais espaço para aprender e, curiosamente, também para ficar mais leve, mais terna e mais bem-disposta. Voltar a ser aprendiz tem sido refrescante.
Talvez a integração tenha muito que ver com esta capacidade de reconhecer o que cada momento nos pede. A firmeza continua disponível, mas já não precisa de responder por tudo. A análise continua a ser útil, mas também posso escutar antes de concluir. E o desejo pode existir sem que eu tenha de lhe entregar todas as decisões. É nestas pequenas diferenças que consigo observar uma mudança real na minha forma de participar.
A imagem dos três rios deixa-me, por isso, uma pergunta que também te quero deixar: que partes de ti estão a tentar encontrar uma forma de seguir juntas? Talvez estejas a começar algo e a exigir de ti a segurança de quem já tem anos de experiência. Talvez saibas cuidar de todos e estejas a aprender a receber cuidado. Ou talvez estejas a descobrir que podes mudar de papel sem perder o que é essencial em ti. É aí que um cenário novo pode abrir espaço para uma resposta nova, quando conseguimos reconhecer quem somos, o que trazemos e o que ainda estamos disponíveis para aprender.
Se te reconheceste nestas palavras, pára um instante numa pergunta: o que continua este padrão a fazer por ti, mesmo quando te custa tanto?
Talvez te ajude a evitar um conflito, a manter uma ligação ou a preservar uma sensação de segurança. Perceber essa função pode abrir espaço para uma escolha que até agora parecia impossível. É precisamente este o trabalho que faço com quem chega às minhas sessões: olhar para o que se repete, compreender o que sustenta essa resposta e encontrar formas concretas de agir com mais consciência e coerência.
Essa mudança pode aparecer num limite que finalmente consegues expressar, numa conversa que deixas de adiar ou na capacidade de viver uma relação sem te afastares de ti.
Se a tua vida mudou, mas continuas a reconhecer as mesmas dificuldades, podemos olhar para isso em conjunto. Numa Sessão de Clareza, vamos explorar o que se repete, o que sustenta essas respostas e que escolhas podem fazer sentido para ti agora.
Marca a tua Sessão de Clareza e vamos começar pelo padrão que mais está a pesar na tua vida.

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