Autenticidade não é uma imagem é uma escolha.

11–16 minutes

Vivemos numa época em que autenticidade se tornou uma das palavras mais usadas no desenvolvimento pessoal, na liderança e até no mundo empresarial. Mas, ao mesmo tempo, basta uma única fotografia para colocarmos em causa a credibilidade de alguém. Talvez porque ainda confundimos imagem com caráter, perfeição com integridade e coerência com perfeição.

Este artigo é um convite a refletir sobre autenticidade, julgamento, identidade e sobre a liberdade de viver de forma coerente com quem realmente somos.

Autenticidade
Autenticidade

“Não te incomoda partilhares uma fotografia com um copo na mão?”

Foi exatamente isso que me perguntaram este fim de semana e há perguntas que ficam connosco muito depois da conversa terminar.
Estava eu na Concentração Internacional de Motos de Faro, como faço todos os anos desde… bem, desde antes de nascer, a minha mãe foi grávida para a concentração e gosto de pensar que o som dos motores foi das primeiras bandas sonoras da minha vida, ou seja, cresci rodeada por este mundo.
O meu avô tinha mota, o meu tio, o meu pai e a minha mãe ainda hoje continua a andar de mota. Talvez seja por isso que, para mim, este lugar nunca foi apenas um encontro de motards. É um pedaço da minha história. Um daqueles lugares onde volto e, durante uns dias, sinto que ainda existe uma parte de mim que continua a ser aquela miúda fascinada com o barulho dos motores, o cheiro da gasolina e a magia de ver tantas pessoas diferentes reunidas no mesmo sítio.

É um evento onde diferentes gerações se encontram. Lá encontras famílias inteiras, crianças, adolescentes, avós, concertos, tatuagens, cheiro a gasolina, gargalhadas, reencontros e milhares de histórias a cruzarem-se durante alguns dias.

Sempre que volto ali, há uma parte de mim que também volta a ser criança. A diferença é que, hoje, em vez de um sumo ou de uma água, posso beber uma cerveja. E até acho graça porque é das raras ocasiões em que me apetece mesmo beber cerveja. No resto do ano continuo a preferir um bom copo de vinho.

Enquanto eu ia partilhando alguns momentos do meu dia nos stories, alguém me fez uma pergunta que ficou comigo: “Não te incomoda mostrar isso nas tuas redes sociais?”

O peso de uma fotografia

Confesso que sorri, não porque a pergunta fosse absurda, mas porque percebi imediatamente de onde vinha.
Afinal, muitas pessoas não me seguem apenas pelas consultas ou pelos conteúdos que partilho. Acompanham o meu percurso, as minhas viagens, os meus desafios, as minhas reflexões e, de certa forma, também o meu estilo de vida. Sei que, para algumas delas, acabo por ser uma inspiração ou uma referência na forma como procuro viver. E isso traz uma responsabilidade que levo muito a sério.
Talvez tenha sido precisamente por isso que aquela pergunta me fez tanto sentido. Porque, no fundo, não era sobre uma cerveja. Era sobre a imagem que esperamos que alguém mantenha quando se torna uma referência para os outros. E isso fez-me pensar…

Quando é que começámos a confundir autenticidade com perfeição? Quando é que decidimos que, para alguém ser competente, tem de deixar de ser humano?

Eu costumo dizer que sou um ser espiritual a viver uma experiência humana, e, por isso mesmo, sou perfeitamente imperfeita. Tenho dias em que medito e dias em que não medito, dias em que caminho durante horas e dias em que passo uma tarde inteira a conversar com amigos, dias em que escolho um chá e dias em que escolho uma cerveja.
Nenhuma dessas escolhas define quem eu sou.

Acredito que, hoje, existe uma enorme dificuldade em aceitar o imperfeito.
Parece que tudo tem de ser impecável, alinhado, esteticamente bonito, coerente ao milímetro. Como se todos estivéssemos, de alguma forma, obcecados por uma versão idealizada da realidade.
Mas a vida nunca foi assim, as pessoas nunca foram assim, e, honestamente, ainda bem. Porque é precisamente nas nossas imperfeições que encontramos a nossa humanidade. É nelas que encontramos o humor, a vulnerabilidade, a empatia, a identificação e a verdadeira ligação uns aos outros. Por isso pergunto-me… Porque é que esperamos que um coach, um terapeuta, um professor ou alguém ligado ao mundo espiritual viva como uma personagem cuidadosamente construída para nunca desiludir ninguém?

Será que alguém deixa de ser íntegro porque, num sábado à tarde, está a conviver com amigos e tem uma cerveja na mão?

Nota: Se este tema desperta alguma coisa em ti, há um livro que recomendo de coração: A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown. Foi um dos livros que mais me fez refletir sobre a vergonha, a vulnerabilidade e a necessidade que temos de corresponder às expectativas dos outros.
Brené Brown explica, de forma brilhante, como passamos grande parte da vida a tentar conquistar amor, pertença e aprovação, quando aquilo que realmente nos aproxima dos outros é exatamente a coragem de sermos imperfeitos. É uma leitura que recomendo frequentemente aos meus clientes e que continua a ocupar um lugar especial na minha biblioteca.

Nota: Se este tema desperta alguma coisa em ti, há um livro que recomendo de coração: A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown. Foi um dos livros que mais me fez refletir sobre a vergonha, a vulnerabilidade e a necessidade que temos de corresponder às expectativas dos outros.
Brené Brown explica, de forma brilhante, como passamos grande parte da vida a tentar conquistar amor, pertença e aprovação, quando aquilo que realmente nos aproxima dos outros é exatamente a coragem de sermos imperfeitos. É uma leitura que recomendo frequentemente aos meus clientes e que continua a ocupar um lugar especial na minha biblioteca.

A fotografia nunca é apenas uma fotografia

Antes de continuar, quero deixar uma coisa clara: Este artigo não é um incentivo ao consumo de álcool, nem à normalização de comportamentos de risco ou de excessos. Cada escolha tem consequências e todos somos responsáveis pelas nossas.

O que me interessa explorar é outra questão. Será que um único momento tem o poder de definir o caráter de uma pessoa? Ou estaremos a esquecer-nos de que, antes de qualquer profissão, título ou missão, somos todos seres humanos a viver uma experiência humana?

Porque este artigo nunca foi sobre uma cerveja. É sobre autenticidade, julgamento, identidade e a liberdade de viver de forma coerente com quem realmente somos. Ou será que o verdadeiro problema está na história que construímos quando vemos apenas um pequeno fragmento da vida de alguém?

Talvez o maior perigo não seja uma fotografia, mas acreditarmos que conhecemos uma pessoa inteira através dela. Publicamos frases sobre autenticidade, falamos sobre vulnerabilidade e dizemos que devemos ser nós próprios. Mas, no momento em que alguém mostra um lado perfeitamente normal da sua vida, rapidamente começamos a questionar se essa pessoa continua a ser “espiritual”, “profissional” ou “um bom exemplo”.

Como se um único instante tivesse o poder de resumir uma vida inteira. Mas talvez a questão mais interessante seja outra.
Porque é que um simples copo na mão consegue alterar tão rapidamente a forma como vemos alguém?

Será mesmo o comportamento que nos incomoda… ou o significado que lhe atribuímos? Pergunto-me se, muitas vezes, não perdemos o respeito pelos outros exatamente nos lugares onde já aprendemos a perder o respeito por nós próprios.
Vivemos numa cultura que nos ensinou a sentir vergonha de certas partes da experiência humana: a divertir-nos “demais”, a descansar, a falhar, a mostrar fragilidade, a errar, anão corresponder à imagem que os outros esperam de nós.

E aquilo que reprimimos em nós tende a tornar-se difícil de tolerar quando o vemos refletido nos outros, provavelmente por isso, uma simples fotografia desperta reações tão diferentes.

Porque a fotografia nunca é apenas uma fotografia, é um espelho.
E cada pessoa acaba por ver nela muito mais de si do que da pessoa que está do outro lado da câmara. Por isso pergunto…

Será que uma fotografia com um copo diz realmente mais sobre o caráter de alguém do que a forma como essa pessoa vive todos os dias? Do que a forma como ama? Como trata quem lhe pede ajuda? Como cumpre a sua palavra quando ninguém está a ver? Como assume as próprias imperfeições? Como cuida das pessoas que fazem parte da sua vida? Ou será que, perante um pequeno fragmento da realidade, a nossa mente faz aquilo que sempre fez: preenche os espaços em branco com as suas próprias histórias, crenças e feridas?

Se as minhas redes sociais fossem compostas apenas por fotografias de livros, meditação, retiros, caminhadas, viagens ou do Caminho de Santiago, provavelmente ninguém faria perguntas. Essas imagens encaixam na narrativa que a nossa mente construiu sobre alguém que trabalha com desenvolvimento humano. Pois são: confortáveis,  previsíveis e confirmam aquilo em que já acreditávamos. Mas a verdadeira integridade nunca esteve na imagem e sim na coerência.

Eu também gosto de passar um fim de semana na Concentração de Faro, música ao vivo, o espetaculo da T-shirt molhada, rever pessoas que fazem parte da minha história. De rir, conversar e desligar do trabalho. E nada disso entra em conflito com aquilo que ensino. Porque maturidade não é viver dentro de uma identidade rígida é conseguir permanecer fiel aos mesmos valores em contextos completamente diferentes.

E é precisamente isso que distingue uma personagem de uma pessoa.

Uma personagem precisa de proteger a imagem, uma pessoa apenas precisa de proteger a sua integridade. No mundo empresarial fala-se muito de liderança autêntica mas a liderança autêntica não nasce da perfeição, nasce da congruência e da capacidade de ser a mesma pessoa numa sala de reuniões, numa sessão de coaching, num jantar de família ou num festival de verão.
A pergunta nunca deveria ser “o que esta pessoa está a fazer nesta fotografia?” A verdadeira pergunta é:

Quem é esta pessoa quando ninguém está a olhar?

Porque é aí que o caráter se revela, e, se vos for completamente honesta…desconfio mais de quem nunca mostra uma falha do que de quem tem a tranquilidade de assumir que, antes de qualquer profissão, título ou missão, continua simplesmente a ser humano.

Sou coach, mas também sou filha, mãe e amiga. Como qualquer pessoa, sou feita de muitas partes. Gosto de viajar e de conhecer outras culturas, passo horas a ler e a escrever, encontro desafio no ginásio, paz no Caminho de Santiago e, todos os anos, volto à Concentração de Faro porque aquele lugar faz parte da minha história. Nenhuma destas partes de mim entra em conflito com as restantes pois pertencem à mesma identidade e todas contam uma parte da minha história.

Talvez tenhamos confundido consciência com privação.
Como se evoluir significasse abdicar do prazer, da leveza ou da celebração para parecermos mais espirituais, mais evoluídos ou mais conscientes. Eu não acredito nisso.

Para mim, viver de forma consciente não é viver menos. É viver de forma mais intencional, assumindo a responsabilidade pelas nossas escolhas sem deixar de abraçar a nossa humanidade.

A consciência não elimina a experiência humana, apenas muda a forma como a vivemos.

Existe uma enorme diferença entre viver em excesso e viver em liberdade. Entre usar o álcool para fugir da realidade ou brindar a um momento especial. Entre construir uma personagem para parecer evoluído ou ter maturidade suficiente para não precisar de esconder a própria humanidade. No fim, acredito que a verdadeira integridade nunca esteve naquilo que fazemos num único momento. Está na forma como escolhemos viver todos os outros.

No fundo, é precisamente isso que procuro fazer no meu trabalho.
Nunca quis ensinar ninguém a construir uma imagem mais bonita, nem uma versão mais espiritual, mais bem-sucedida ou mais admirável de si próprio.

O meu trabalho é de certa forma o oposto. Passa por guiar cada pessoa a perceber onde termina a sua identidade… e onde começa a personagem que aprendeu a construir para ser aceite, amada ou respeitada. Porque, quase sempre, o sofrimento não nasce de quem somos, nasce do esforço constante para sustentar alguém que nunca fomos.

E talvez seja essa a pergunta que vos quero deixar. Quando acordam de manhã, vivem a partir da vossa identidade… ou da personagem que acreditam que o mundo espera encontrar? As decisões que tomam são realmente vossas? Ou pertencem ao medo de perder aprovação, respeito ou reconhecimento?

Porque foi exatamente isso que aquela pergunta me fez perceber.

Se um simples copo na mão tem o poder de alterar a forma como alguém me vê, então talvez nunca tenha sido sobre a cerveja e sim sobre a personagem que essa pessoa precisava que eu representasse.

Confundir um comportamento com uma identidade é uma das formas mais rápidas de deixarmos de ver o ser humano que existe por detrás da imagem

E eu não quero ser uma personagem nem quero ensinar as pessoas a viver dentro de uma caixa moral onde existem comportamentos “aceitáveis” para parecer evoluído e outros que devem ser escondidos para preservar uma imagem.

Tenciono continuar a guiar as pessoas a viverem de forma tão íntegra que deixem de precisar de esconder partes de si.
E se um dia eu sentir que preciso de ocultar quem sou para parecer mais credível, então será sinal de que deixei de viver aquilo que ensino.

A autenticidade nunca foi sobre parecer perfeito, é sobre ter a coragem de deixar de representar um papel. E, quem sabe, essa seja também a pergunta que mais importa para ti.

Quem serias… se já não precisasses de convencer ninguém de quem és?

A maior prisão não são os comportamentos que repetimos é a personagem que acreditamos ter de continuar a representar. Porque a verdadeira transformação nunca acontece quando mudamos de comportamento, acontece quando deixamos de viver para proteger uma identidade que já não nos pertence.

Antes de terminar, quero apenas dizer-vos uma coisa. Diverti-me mesmo: Ri, dancei, revi pessoas que fazem parte da minha história e, durante uns dias, voltei àquele lugar onde a infância ainda parece estar à minha espera. E senti uma enorme gratidão, por poder viver tantas partes de mim sem sentir que preciso de escolher apenas uma.

A coach e a mãe; a mulher que escreve e a que passa horas a estudar comportamento humano; a que encontra paz no Caminho de Santiago e a que, uma vez por ano, gosta de sentir o barulho dos motores, a música e a energia da Concentração de Faro. Hoje já não sinto necessidade de esconder nenhuma delas.

Porque aprendi que uma identidade saudável não elimina partes de nós. Integra-as.

É exatamente esse o caminho que procuro fazer com quem chega até mim. Não é ajudar alguém a tornar-se outra pessoa, mas a regressar a quem é quando já não precisa de viver para proteger uma personagem.

Se este artigo despertou alguma pergunta dentro de ti, talvez seja um bom momento para começares essa conversa. E, se sentires que faz sentido fazê-la acompanhado, sabes onde me encontrar, será um privilégio caminhar uma parte desse caminho contigo.

Ah… e para quem ficou curioso…Já foram anunciadas as datas da Concentração de Faro do próximo ano e é bem possível que me encontrem por lá outra vez. Provavelmente a rir e a criar mais uma boa memória, e , quem sabe… com uma cerveja na mão. 🍻

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