Como Sair do Modo de Sobrevivência?

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12–19 minutes
Sair do Modo de Sobrevivência

Quem és tu quando já não precisas de sobreviver? O verdadeiro desafio não é sair do modo de sobrevivência, é descobrir quem sobra quando ele termina.

Durante muitos anos achei que o objetivo do desenvolvimento pessoal era curar: as feridas da infância, compreender os meus padrões, deixar de repetir relacionamentos, libertar-me da necessidade de validação e descobrir quem realmente era. E foi precisamente isso que fiz.
Mergulhei no autoconhecimento, observei-me até à exaustão, questionei cada emoção, cada reação e cada conflito.
Lia, estudava, escrevia, investigava o comportamento humano e tentava compreender porque repetimos determinadas experiências ao longo da vida. Imagina, se uma relação terminava, queria perceber porquê, se alguém se afastava, procurava a aprendizagem, quando surgia um padrão, estudava-o até conseguir compreender a sua origem. Como se houvesse sempre mais uma peça para encaixar, mais uma camada para integrar ou mais uma parte minha para descobrir.

E, durante muito tempo, isso fez todo o sentido, era assim que eu caminhava a vida e que encontrava segurança.

Até que, há relativamente pouco tempo, comecei a reparar que alguma coisa tinha mudado dentro de mim.
Não aconteceu de um dia para o outro, nem houve um momento específico em que pudesse dizer “foi aqui”.
Foi uma mudança silenciosa, quase imperceptível. Simplesmente comecei a sentir que a urgência tinha desaparecido.
Deixei de sentir necessidade de provar o meu valor, de convencer alguém da minha verdade ou de encontrar uma explicação para tudo o que acontecia ou de transformar cada acontecimento numa resposta ou numa lição. Não me querendo repetir, mas digamos que durante muitos anos, cada conflito, cada afastamento, cada desafio eram sinónimo de uma investigação minuciosa.
Eu precisava de ligar os pontos, de compreender o que a vida me estava a tentar mostrar, e, de repente, percebi que já não precisava.

Não porque tivesse encontrado todas as respostas mas porque deixei de depender delas para sentir paz.
Foi precisamente nesse momento que me deparei com uma pergunta para a qual ninguém me tinha preparado.

Quem sou eu quando já não preciso de sobreviver?

Sair do Modo de Sobrevivência
Sair do Modo de Sobrevivência

Passamos o tempo a falar sobre trauma, cura emocional, padrões repetitivos e desenvolvimento pessoal, falamos sobre como sair do modo de sobrevivência mas pouco se partilha sobre aquilo que acontece depois.

Como aprendemos a viver quando já não somos movidos pela dor?

Curiosamente, a psicologia tem vindo a estudar este fenómeno, conhecido como crescimento pós-traumático (Post-Traumatic Growth). Os estudos mostram que crescer não significa deixar de sofrer ou viver uma vida perfeita. A verdadeira transformação acontece na forma como nos relacionamos connosco próprios, com os outros e com aquilo que a vida nos apresenta.

Curiosidade científica: O conceito de Post-Traumatic Growth foi desenvolvido pelos psicólogos Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun e descreve as mudanças psicológicas positivas que podem surgir após acontecimentos profundamente desafiantes. Curiosamente, esse crescimento não significa ausência de sofrimento, mas uma transformação na forma como a pessoa se relaciona consigo própria e com a vida.
(Tedeschi & Calhoun, 1996; estudos mais recentes disponíveis na PubMed).

Apesar disso, existe uma dimensão deste processo que continua a ser pouco explorada:

O vazio.

Não é um vazio de tristeza, nem de falta, é um vazio bem diferente.
É o espaço que fica quando a dor deixa de ocupar tanto lugar dentro de nós.

E talvez esse tenha sido um dos momentos mais desconcertantes da minha vida. Porque ninguém me tinha explicado que, depois de passarmos tantos anos a sobreviver… também precisamos de aprender a existir.

Curiosamente, o psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente de vários campos de concentração nazis e fundador da Logoterapia, defendia que, depois de garantida a sobrevivência, o ser humano confronta-se inevitavelmente com uma nova pergunta: “Para quê?”
No seu livro Em Busca de Sentido, Frankl explica que o maior desafio nem sempre é sobreviver ao sofrimento, mas encontrar significado depois dele.
Talvez o vazio que tantas pessoas sentem não seja falta de sentido, quiçá a seja apenas o espaço onde um novo sentido ainda está a nascer.

Durante muitos anos fui construindo versões de mim que fizeram todo o sentido naquele momento: a mulher forte que nunca pedia ajuda; a mãe independente que acreditava que tinha de conseguir fazer tudo sozinha; a profissional que encontrava valor na competência e em estar sempre disponível para os outros; a empreendedora que fazia do trabalho a sua forma de provar que era capaz; a que precisava de compreender tudo para sentir segurança; a que acreditava que, se encontrasse a resposta certa, finalmente iria sentir paz.

Talvez, ao leres isto, te identifiques com outras versões: o filho exemplar que nunca quis desiludir os pais; a parceira que colocava sempre as necessidades do outro em primeiro lugar; a pessoa que não conseguia dizer “não”; a que precisava de controlar tudo; a que vivia para cuidar de todos; a que fazia do sucesso a sua identidade ou aquela que aprendeu a esconder quem realmente era para garantir que seria aceite.

Foi então que percebi que a verdadeira dificuldade nunca foi curar a dor, mas sim fazer o luto da pessoa que a dor me obrigou a ser. Porque existe um luto de que pouco se fala, não é o luto de uma relação, nem de um familiar ou sequer o luto de uma fase da vida.

É o luto de uma identidade.

E, olhando para trás, apercebo-me de que já não me identifico com nenhuma dessas versões. Atenção, não as rejeito, nem me arrependo delas, aliás continuo profundamente grata por tudo aquilo que fizeram por mim. Cada uma apareceu num momento em que era exatamente daquela estratégia que eu precisava para continuar a avançar: foram inteligentes, necessárias e a melhor resposta que consegui encontrar com a consciência que tinha naquela altura.

Hoje gosto de olhar para essas versões como olho para um guarda-roupa. Não deixamos de usar um casaco de inverno porque ele é muito quente, deixamos de o usar porque chegou o verão. E essa imagem mudou completamente a forma como vejo o desenvolvimento pessoal.

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Não acredito que o objetivo seja eliminar partes de nós, matar o ego ou lutar contra quem fomos. Acredito que o verdadeiro crescimento acontece quando percebemos que nenhuma dessas versões foi criada para nos acompanhar todos os dias ou sequer durante toda a vida. No entanto elas continuam dentro de nós.

Se amanhã eu precisar de ser firme, consigo sê-lo, se precisar de liderar uma equipa, enfrentar uma crise ou proteger quem amo, essas capacidades continuam disponíveis. A diferença é que deixaram de ser a única forma que conheço de estar no mundo.

Hoje são uma escolha e não uma necessidade.
E isso muda tudo.

Porque, quando uma identidade deixa de ser necessária, também tudo aquilo que a sustentava começa, naturalmente, a perder espaço. As conversas, as amizades e os interesses mudam. Os hábitos deixam de fazer sentido e alguns lugares onde antes me sentia em casa começam a parecer estranhos e até a forma como escolho ocupar o meu tempo se altera.

Durante algum tempo achei que estava a perder partes de mim. Hoje percebo que estava apenas a deixar para trás os acessórios de uma versão que já tinha cumprido a sua função.

Para mim foi a parte mais solitária de todo o processo, porque ninguém nos prepara para o facto de que, quando mudamos por dentro, o mundo à nossa volta também se reorganiza. Não porque alguém esteja errado nem porque tenhamos de cortar relações ou mudar radicalmente de vida. Mas porque algumas pessoas, algumas rotinas e até alguns sonhos estavam profundamente ligados à identidade que precisávamos de ser para sobreviver. Quando essa identidade deixa de conduzir a nossa vida, é natural que tudo o resto encontre um novo lugar. E, quando isso acontece, não nasce automaticamente uma nova versão de nós.
(Era bom não era? tornava tudo bem mais fácil).
Mas não é assim que acontece.
Primeiro nasce o silêncio, estranho e desconfortável. Não é um silêncio vazio, mas é um silêncio diferente. Como se alguém tivesse desligado um ruído que esteve presente durante tantos anos que já fazia parte da banda sonora da nossa vida.
É o silêncio que aparece quando deixamos de viver em reação ao passado e começamos, pela primeira vez, a escolher conscientemente quem queremos ser.

Curiosidade: Em antropologia existe um conceito chamado liminal space: o espaço de transição entre uma identidade antiga e uma nova.
É frequentemente descrito como um período de incerteza, onde deixamos de reconhecer quem fomos, mas ainda não conseguimos definir quem estamos a tornar-nos. Talvez seja precisamente esse o lugar onde tantas pessoas se sentem perdidas, quando na realidade estão apenas em transição.

Durante muito tempo pensei que a paz fosse o destino, hoje percebo que a paz também exige aprendizagem. Porque até a tranquilidade pesa.

Quando vivemos anos (às vezes décadas) em modo de sobrevivência, o nosso sistema nervoso habitua-se à intensidade. O cérebro aprende a antecipar ameaça, conflito e urgência como se fossem o estado normal da vida. Quando esse estado finalmente muda, é frequente surgir uma sensação inesperada: a de não nos reconhecermos completamente.
A investigação em trauma mostra precisamente que a recuperação implica uma reorganização da forma como nos percebemos a nós próprios e ao mundo, e essa transição pode ser profundamente desconcertante.

O problema não é o caos, é o sistema nervoso que interpreta a ausência de caos como ausência de vida. Isso é algo bem documentado na literatura sobre trauma: quando passamos muito tempo em estado de alerta, a calma pode parecer estranha ou até ameaçadora. Não porque haja algo de errado com a paz, mas porque o cérebro ainda não a reconhece como segura.

Talvez seja por isso que tantas pessoas, sem se aperceberem, voltam a criar intensidade nas suas vidas.

Entram em relações complicadas quando finalmente encontram alguém emocionalmente disponível, enchem a agenda até ao limite, saltam de projeto em projeto, criam conflitos onde já não existem ou vivem constantemente à procura do próximo desafio, como se precisassem de estar sempre a conquistar alguma coisa.

Não porque gostem de sofrer mas porque o caos lhes é familiar. E aquilo que nos é familiar, por mais doloroso que seja, transmite uma estranha sensação de segurança.

black and white photo of people on a spiral staircase

Quando passamos anos em modo de sobrevivência, a calma pode parecer aborrecida, o silêncio pode ser confundido com vazio e a paz pode até despertar a ansiedade. Não porque exista algum problema na tranquilidade, mas porque o nosso corpo ainda está a aprender que já não precisa de viver em estado de alerta.

Foi talvez uma das maiores lições que aprendi sobre mim.

Percebi que o verdadeiro desafio nunca foi aprender a viver com a dor. Foi aprender a não precisar dela para sentir que estou viva. Aprender a permanecer na tranquilidade sem sentir necessidade de a preencher, de a interromper ou de fugir dela.

Porque, muitas vezes, a cura não pede mais uma resposta, mais um curso, mais um relacionamento ou mais um objetivo.

Pede apenas que fiquemos tempo suficiente em paz para descobrirmos quem somos quando já não estamos ocupados a sobreviver.

É normal sentir um vazio depois de um processo de cura emocional?

 Sim. Muitas pessoas descrevem um período de adaptação depois de deixarem o modo de sobrevivência. Esse vazio não significa que estejas a regredir; pode significar que estás a construir uma nova identidade, menos dependente do medo e dos antigos mecanismos de defesa.

Porque sinto menos motivação depois de resolver alguns dos meus traumas?

Porque, muitas vezes, a tua motivação estava associada à necessidade de provar, controlar ou sobreviver. Quando essas estratégias deixam de ser necessárias, é natural que precises de descobrir uma forma mais consciente e autêntica de encontrar propósito.

Como saber se estou a viver em modo de sobrevivência?

Alguns sinais incluem viver em constante urgência, dificuldade em descansar, necessidade de controlar tudo, medo de desiludir os outros, procura constante de validação ou repetição dos mesmos padrões emocionais e relacionais.

5 coisas que gostava que alguém me tivesse dito quando deixei de sobreviver

Se estás a fazer um verdadeiro processo de autoconhecimento, é possível que também chegues a este lugar. Onde já não és a pessoa que foste… mas ainda não sabes exatamente quem te estás a tornar.

1. Não confundas paz com falta de propósito

Durante algum tempo achei que tinha perdido a minha motivação. Já não sentia a urgência de fazer mais, provar mais ou conquistar mais. Deixei de ser movida pelo medo, pela necessidade de validação ou pela sensação constante de que ainda me faltava alguma coisa.

Cheguei a pensar que tinha perdido o meu propósito, hoje percebo que não, apenas deixei de correr. E quando deixamos de correr, finalmente podemos escolher a direção.

2. Questiona tudo, até aquilo que sempre fez parte de ti

Esta foi uma das maiores surpresas. De repente alguns hobbies deixaram de me entusiasmar, certas conversas começaram a cansar-me, objetivos que durante anos pareciam essenciais perderam importância e até algumas relações deixaram naturalmente de acompanhar o meu caminho.

No início assustei-me.

Achei que estava a perder partes de mim, hoje percebo que estava apenas a deixar de alimentar uma identidade que já tinha cumprido a sua função.

Se estás nesta fase, permite-te questionar tudo: os teus gostos; as tuas rotinas; a forma como trabalhas; as pessoas com quem te identificas.

Nem tudo aquilo que fazia sentido para a tua versão de sobrevivência continuará a fazer sentido para a tua versão consciente.

3. Não tenhas pressa em preencher o vazio

Existe uma enorme tentação de ocupar esse espaço, seja: com uma nova relação, um novo curso, um novo projeto, uma viagem, um negócio, mais desenvolvimento pessoal ou mais uma tentativa de te reinventares.

Mas esse vazio não é um problema para resolver, é a primeira vez que a tua vida cria espaço suficiente para te ouvires sem ruído.

Nem todo o silêncio precisa de ser preenchido às vezes é precisamente nele que começamos a descobrir quem realmente somos.

4. Descobre quem és quando deixas de ser necessária

Esta foi provavelmente a pergunta mais difícil que fiz a mim própria. Quem sou eu quando ninguém precisa da minha ajuda? Quando não tenho nada para provar? Quando já não sou definida pelo meu trabalho, pelas minhas relações ou pela imagem que os outros têm de mim?

Foi aí que comecei verdadeiramente a conhecer-me.

Não através dos papéis que desempenhava mas através da pessoa que permanecia quando todos esses papéis deixavam de ser necessários.

5. Troca a necessidade de mudar pela curiosidade de compreender

Durante muitos anos pensei que o autoconhecimento servia para encontrar respostas. Hoje acredito que serve para recuperar a liberdade.

A maioria de nós passa grande parte da vida a reagir. Reagimos: ao medo, à rejeição, à necessidade de aprovação, à culpa, à vergonha, a padrões tão antigos que acabamos por lhes chamar personalidade. Mas aquilo que repetimos nem sempre revela quem somos, muitas vezes revela apenas aquilo que ainda vive em nós sem ter sido observado.

Hoje já não procuro eliminar os meus padrões, procuro compreendê-los. Já não pergunto “como deixo de sentir isto?”. Pergunto antes:

“O que é que esta parte de mim tentou proteger durante todos estes anos?”

Essa única pergunta trouxe-me mais paz do que muitas das técnicas que aprendi. Porque a verdadeira transformação raramente acontece quando lutamos contra quem somos, ela surge quando compreendemos porque precisamos de ser essa pessoa.

Lembra-te só aquilo que é visto pode deixar de conduzir a nossa vida a partir da sombra.

E talvez seja isso que verdadeiramente muda quando despertamos para nós próprios. A vida continua a acontecer, as emoções continuam a surgir. Mas deixamos de viver em reação constante e pela primeira vez, temos espaço para escolher.

O que acontece depois de sairmos do modo de sobrevivência?

Sair do modo de sobrevivência não significa que a vida deixa de ter desafios. Significa apenas que deixamos de ser guiados exclusivamente pelo medo, pela necessidade de validação ou pelos mecanismos de defesa que um dia foram essenciais para nos proteger.

O verdadeiro desafio passa a ser outro: aprender a viver a partir da consciência, da autenticidade e da liberdade de escolha. Esse é, para mim, o verdadeiro propósito do autoconhecimento.

Não é criar uma nova versão de nós mas sim descobrir quem somos quando já não precisamos de sobreviver.

O verdadeiro desafio nunca foi aprender a viver com a dor, mas sim aprender a viver sem precisar dela para saber quem sou.

E agora?

Se chegaste até aqui, talvez tenhas reconhecido algumas partes de ti neste artigo. Talvez também estejas naquela fase estranha em que já não és a pessoa que foste, mas ainda não sabes exatamente quem estás a tornar-te.

Se for esse o teu caso, quero que saibas uma coisa: não há nada de errado contigo e nem estás perdido, estás apenas num lugar sobre o qual quase ninguém fala. Um lugar onde a sobrevivência começa a deixar de conduzir a tua vida e onde, pela primeira vez, surge espaço para escolher quem queres realmente ser.

É precisamente esse espaço que procuro criar nas minhas sessões. Não para te dizer quem és, nem para te dar uma lista de respostas mas para te ajudar a observar os padrões que ainda conduzem a tua vida, compreender porque surgiram e descobrir quem existe para além deles.

Porque acredito que o verdadeiro autoconhecimento não consiste em acrescentar mais uma técnica, mais uma teoria ou mais uma identidade.

Consiste em recuperar a liberdade de escolher, conscientemente, quem responde à vida.

Se sentes que chegou o momento de fazer esse caminho com acompanhamento, podes conhecer as minhas Sessões de Clareza e os programas individuais.

Talvez esta não seja a altura de mudares de vida mas sim de começares, finalmente, a viver a tua.

Conhece aqui as sessões de acompanhamento

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