Identidade nos Relacionamentos: Quando Deixas de Saber Quem És

17–25 minutes

O Preço Invisível de Construir a Tua Vida à Volta de Outra Pessoa

O que acontece quando uma pessoa constrói a sua identidade à volta de alguém e, um dia, essa pessoa deixa de ser o centro da sua vida?

A maioria das pessoas acredita que o maior risco de depender emocionalmente de uma relação é o sofrimento que surge quando ela termina. Mas, na minha experiência, o verdadeiro risco é muito mais profundo. É identitário.

identidade

No artigo anterior falei sobre a necessidade de validação. Sobre a forma como muitas pessoas passam anos a tentar ser compreendidas, reconhecidas, escolhidas ou aprovadas pelos outros. Mas quanto mais refletia sobre esse tema, mais me apercebia de que a validação raramente é o verdadeiro problema. Na maioria das vezes é apenas um sintoma. Porque quando alguém constrói a sua identidade à volta de outra pessoa, a aprovação deixa de ser apenas agradável.

Passa a parecer necessária.

E talvez seja por isso que tantas pessoas se sentem devastadas quando uma relação termina, quando um filho se afasta, quando uma amizade muda ou quando alguém deixa de as escolher.
O que acontece quando uma pessoa constrói a sua identidade à volta de alguém e, um dia, essa pessoa deixa de ser o centro da sua vida?

A maioria das pessoas acredita que o maior risco de uma relação é o sofrimento que surge quando ela termina. Mas existe um problema nesta ideia. Porque a maioria das pessoas nem sequer reconhece quando começou a depender emocionalmente dessa relação.

Raramente alguém acorda de manhã a pensar: “Estou dependente desta pessoa.” Na verdade, a dependência emocional costuma apresentar-se disfarçada de amor, dedicação, preocupação, compromisso ou esperança. Manifesta-se através de pensamentos como:

“Eu só queria que ele me compreendesse.”
“Eu só queria que ela me valorizasse.”
“Eu só queria que os meus filhos reconhecessem tudo o que faço por eles.”
“Eu só queria que as coisas fossem diferentes.”

E é precisamente por isso que este padrão passa tantas vezes despercebido. Porque aquilo que está em causa nem é a pessoa é aquilo que a pessoa representa: Validação, segurança, importância, pertença e identidade.

E quando uma parte da nossa identidade fica dependente dessa fonte, qualquer mudança na relação deixa de ser apenas uma perda emocional. Passa a parecer uma ameaça àquilo que acreditamos ser.

Ao longo da minha vida conheci mulheres que construíram a sua identidade à volta dos filhos, outras à volta dos maridos, outras à volta do trabalho, outras à volta do papel de cuidadora. E, para ser honesta, também já vivi as minhas próprias versões deste padrão.

Não exatamente da mesma forma mas durante muitos anos procurei respostas, significado, crescimento e transformação através das relações que encontrava pelo caminho. Algumas dessas relações ensinaram-me muito, outras partiram-me o coração e outras obrigaram-me a confrontar partes de mim que eu preferia não ver.

Mas olhando para trás, percebo hoje que nenhuma dessas pessoas era o centro da história. Eu era. E essa foi uma das lições mais importantes que a vida me ensinou.

Porque existe uma diferença entre amar alguém e construir a tua identidade à volta dessa pessoa. Quando alguém abdica dos seus sonhos, dos seus projetos, da sua independência, da sua carreira ou da construção do seu próprio castelo para investir tudo numa relação, não está apenas a investir amor.

Está a investir partes de si mesma e durante algum tempo isso pode parecer uma escolha perfeitamente natural. Afinal, amar implica compromisso, presença, entrega e construção.

O desequilíbrio surge quando, sem nos apercebermos, deixamos de construir a nossa própria vida e passamos a viver apenas dentro da vida do outro. Quando isso acontece, a relação deixa de ser uma parte da identidade. Passa a ser a identidade.

Existe uma diferença entre amar alguém e construir a tua identidade à volta dessa pessoa.

Por isso, quando a relação termina, a dor raramente está relacionada apenas com a perda da pessoa. Mas com a perda do nosso: papel, direção, estrutura, rotina, fonte de validação. A perde de uma narrativa inteira sobre quem acreditávamos ser e é precisamente aqui que muitas vezes nasce o ressentimento.

Não necessariamente contra o outro, mas contra a vida, as circunstâncias, e na maioria das vezes contra nós próprios. Porque existe uma parte silenciosa dentro de nós que sabe que participou nessa escolha. Que sabe que, algures pelo caminho, deixou de investir em si para investir apenas na relação.

É por isso que algumas pessoas passam anos presas ao passado, não porque ainda amem profundamente o ex-parceiro mas porque continuam ligadas à versão de si próprias que existia dentro daquela relação. E reconstruir uma identidade é muitas vezes mais difícil do que ultrapassar um desgosto amoroso. Porque implica responder a perguntas que nunca fomos ensinados a fazer:

  • Quem sou eu sem este relacionamento?
  • Quem sou eu sem este papel?
  • Quem sou eu quando deixo de ser necessária?
  • Quem sou eu quando deixo de ser escolhida?
  • Quem sou eu quando ninguém precisa de mim?

Estas perguntas podem parecer simples mas são precisamente as perguntas que muitas pessoas passam décadas a evitar. Porque enquanto estamos ocupados a cuidar dos outros, a resolver os problemas dos outros, a ser necessários para os outros, nunca precisamos de descobrir verdadeiramente quem somos. E é por isso que tantas pessoas permanecem emocionalmente ligadas a situações que terminaram há anos. Porque aquilo que está em jogo não é apenas o relacionamento é a identidade que foi construída à volta dele.

Porque é Que Algumas Pessoas se Perdem nos Relacionamentos?

O Papel dos Estilos de Apego

Uma das formas mais simples de compreender isto é através da teoria dos estilos de apego. De forma resumida, existem quatro grandes padrões de vinculação emocional que tendem a formar-se durante a infância:

  • O apego seguro tende a desenvolver-se quando a criança sente que pode aproximar-se e afastar-se mantendo o vínculo.
  • O apego ansioso procura constantemente confirmação, validação e proximidade, vivendo frequentemente com medo da rejeição ou abandono.
  • O apego evitante aprende a depender apenas de si próprio, evitando vulnerabilidade e intimidade.
  • E o apego desorganizado oscila entre a procura intensa de ligação e o medo dessa mesma ligação.

Nenhum destes padrões é uma sentença. Mas ajudam-nos a compreender porque duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e reagir de formas completamente diferentes.

Se quiseres explorar mais sobre este tema, recomendo vivamente o livro: Attached | The New Science Of Adult Attachment And How It Can Help You Find–And Keep–Love de M.D. Amir Levine e Rachel Heller.

Enquanto uma pessoa consegue aceitar o fim de uma relação sem perder o seu centro, outra sente que toda a sua identidade está a desmoronar. Para algumas pessoas o relacionamento é apenas uma parte da vida enquanto que para outras tornou-se o alicerce sobre o qual construíram a própria identidade.

O problema nunca foi amar profundamente, ou a dedicação à relação ou a construção de uma familia. O desequilíbrio surge quando a tua identidade deixa de viver dentro de ti e passa a viver dentro de uma função. Durante anos muitas pessoas acreditam que estão a construir uma vida, mas, se observarem com honestidade, estão apenas a construir um papel: A esposa. A mãe. A cuidadora. A parceira. A mulher forte que aguenta tudo. A mulher que está sempre disponível. A mulher que resolve os problemas de toda a gente.

E quanto mais tempo vivem nesse papel, mais difícil se torna distinguir quem são daquilo que fazem.
É por isso que tantas crises de identidade surgem após um divórcio, uma separação, a saída dos filhos de casa ou até uma reforma.
Porque não foi apenas uma relação que terminou. Foi uma função. E quando uma função desaparece, somos obrigados a descobrir se existe alguém por trás dela.

Mas existe aqui um detalhe importante que poucas pessoas consideram.

Muitas vezes não é apenas o fim da relação que provoca a crise. É a própria perda de identidade que contribui para o desgaste da relação ao longo do tempo. Porque quando deixamos de crescer, de sonhar, de explorar interesses próprios, de investir em nós mesmos e de continuar a construir o nosso castelo, algo muda.

Deixamos de nos apresentar ao relacionamento como indivíduos completos e começamos a apresentar-nos apenas através de um papel.

A esposa. O marido. A mãe. O pai. O cuidador. O suporte emocional.

E por mais amor que exista, nenhuma relação floresce durante muito tempo quando uma das pessoas deixa de existir para além da função que desempenha. Aquilo que inicialmente parecia amor e dedicação pode transformar-se lentamente em dependência, controlo, ressentimento ou estagnação.

Porque uma relação saudável não vive apenas da proximidade, vive também da individualidade e da capacidade de duas pessoas continuarem a crescer, a descobrir-se e a trazer versões renovadas de si próprias para a relação.

O declínio surge quando uma relação deixa de ser um espaço de partilha e passa a ser o lugar onde procuramos identidade, valor, propósito e pertença. Nenhuma relação consegue suportar esse peso durante muito tempo. E nenhum parceiro consegue ser simultaneamente amante, melhor amigo, propósito de vida, fonte de auto-estima, validação emocional, identidade e razão de existir. Mais cedo ou mais tarde, a relação começa a colapsar sob um peso que nunca lhe pertenceu carregar.

O Teu Castelo

Ao longo dos anos comecei a utilizar uma metáfora simples. A metáfora do castelo.

O teu castelo é tudo aquilo que continua a existir mesmo quando ninguém está a olhar para ti: os teus valores, interesses, projetos, carreira, missão, amizades e a tua relação contigo própria.

É aquilo que permanece quando os relacionamentos mudam, quando os filhos crescem, quando as circunstâncias se transformam e quando a vida te obriga a recomeçar.

O problema não é viveres dentro do castelo de alguém é deixares de construir o teu. Quando isso acontece, qualquer ameaça à relação transforma-se numa ameaça à tua própria estabilidade. E é por isso que algumas pessoas não perdem apenas um parceiro quando uma relação termina perdem a casa emocional onde viviam.

Durante anos pensei que a liberdade vinha de encontrar as pessoas certas. Hoje acredito que a liberdade vem de continuar a construir a tua própria vida independentemente de quem entra ou sai dela. Quando a tua vida deixa de depender da presença de alguém, os relacionamentos deixam de ser uma necessidade e passam a ser uma escolha.

Como vês a tragédia não é perder uma relação é o passar tantos anos a viver dentro do castelo de outra pessoa que te esqueces de continuar a construir o teu. Porque quando deixamos de investir em nós, deixamos lentamente de explorar quem somos, aquilo que nos inspira, aquilo que nos desafia e aquilo que nos faz sentir vivos. E sem nos apercebermos, começamos a pedir aos relacionamentos que nos deem aquilo que apenas nós podemos construir: Propósito. Direção. Identidade. Valor.

A boa notícia é que um castelo pode sempre ser reconstruído. Não importa se tens 30, 40, 50 ou 70 anos. Não importa quantos anos passaste a cuidar dos outros. Não importa quantas vezes te perdeste pelo caminho. Enquanto estiveres viva, existe sempre a possibilidade de voltar a casa.

E voltar a casa nem sempre significa mudar de cidade, terminar uma relação ou recomeçar do zero.

Significa algo muito mais simples:

  • Voltar a fazer perguntas.
  • Voltar a aprender.
  • Voltar a sonhar.
  • Voltar a investir tempo em algo que é só teu.
  • Voltar a descobrir quem és para além dos papéis que desempenhas.

Porque relacionamentos saudáveis não nascem quando duas pessoas precisam uma da outra para existir. Nascem quando duas pessoas inteiras escolhem caminhar juntas. E quanto mais forte for o teu castelo, menos precisarás que os outros carreguem o peso da tua felicidade.

Paradoxalmente, é nessa altura que o amor se torna mais leve, mais livre e mais verdadeiro. Porque já não estás com alguém porque precisas. Estás porque escolhes e existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Se amanhã todos os teus relacionamentos permanecessem exatamente iguais, mas fosses obrigada a dedicar 10 horas por semana exclusivamente a ti, onde as investias? O que aprenderias? O que criarias? O que explorarias? O que construirias?

O Que o Human Design Também Nos Mostra

Talvez neste momento estejas a pensar: “Mas porque é que algumas pessoas se perdem mais facilmente do que outras?”

Parte da resposta está na infância. Parte está nos estilos de apego. E parte está também na forma como fomos desenhados para experienciar identidade e pertença.

Ao longo dos anos observei algo interessante através do Human Design. Pessoas com o Centro G (Centro da Identidade) indefinido tendem a ser mais permeáveis à influência dos ambientes, dos relacionamentos e das pessoas que as rodeiam.

Isto não é uma sentença, nem significa que estejam condenadas a perder-se nos outros. Mas significa que muitas vezes procuram pistas sobre quem são através das experiências e relações que vivem.

Quando existe consciência, esta abertura transforma-se numa enorme capacidade de compreender pessoas e perspectivas diferentes. Quando não existe, pode transformar-se numa procura constante por identidade através dos relacionamentos. E é aqui que muitas pessoas começam a adaptar-se, moldar-se e sacrificar-se para manter uma ligação. Sem perceber que estão lentamente a afastar-se de si próprias.

Quando os Filhos se Tornam o Centro da Identidade

Uma das situações que mais observo acontece após separações ou divórcios. Muitas mães dizem a si próprias que estão a viver exclusivamente para os filhos. Quantas vezes ouviste ou disseste:

“Os meus filhos são a minha vida.”

“Eles são tudo o que tenho.”

“Vivo apenas para os meus filhos.”

À primeira vista parece um gesto nobre. Mas raramente é.

conscious motherhood breaking generational patterns

Porque existe uma diferença entre cuidar de uma criança e utilizar a criança para preencher um vazio interno. Quando uma mãe ou um pai abdica completamente da sua individualidade, dos seus interesses, dos seus sonhos, da sua vida social, dos seus projetos e da sua identidade em nome dos filhos, cria frequentemente uma dinâmica invisível de dependência emocional.
A criança deixa de ser apenas uma criança e passa a carregar o peso de dar sentido à vida do cuidador.
Existe uma diferença entre amar profundamente um filho e transformar esse filho no centro da tua identidade e esse é um peso que nunca deveria pertencer a uma criança.

“Uma criança não precisa que sacrifiques a tua vida por ela. Precisa de ver um adulto que sabe viver a própria vida.”
by Neuza

Muitas vezes aquilo que chamamos amor é, na realidade, medo: medo do vazio, da solidão,  de descobrir quem somos sem alguém para cuidar.
E quanto mais a identidade depende desse papel, mais difícil se torna permitir que os filhos cresçam, ganhem autonomia e construam a própria vida. Uma criança precisa de amor, de presença e de segurança. Mas não precisa de carregar o peso de ser o propósito da vida dos pais.

Talvez uma das maiores provas de amor que um pai ou uma mãe pode dar a um filho seja continuar a construir a sua própria vida. Porque uma criança não precisa de um mártir. Precisa de um exemplo.
E outra grande dádiva que lhe podemos mostrar, é que é possível amar profundamente alguém sem deixar de existir para além desse amor.

O Benefício Oculto do Sofrimento

Existe uma pergunta que faço frequentemente quando observo alguém preso ao mesmo padrão durante anos:

O que é que esta pessoa ganha ao permanecer aqui?

Porque os seres humanos raramente mantêm uma situação apenas pelos custos. Normalmente existe um benefício oculto. Talvez seja esperança, proximidade, relevância, identidade, a possibilidade de continuar a acreditar que um dia tudo será reparado.
É por isso que muitas pessoas permanecem emocionalmente ligadas a ex-parceiros, conflitos familiares ou histórias que terminaram há muito tempo.

Porque abandonar a dor pode obrigar-nos a enfrentar algo ainda mais assustador.

O vazio. A responsabilidade. A reconstrução.

Porque enquanto o problema continua a ser o ex-marido, os pais, a infância, o parceiro, a sociedade ou as circunstâncias, continuamos a saber para onde apontar o dedo, a saber quem culpar e contra o que lutar. Mas no momento em que largamos a história, surge uma pergunta muito mais desconfortável:

“E agora?”

Porque agora já não se trata daquilo que aconteceu, trata-se daquilo que vou fazer com aquilo que aconteceu. E é aqui que começa a verdadeira auto-responsabilização. Não pela ferida, injustiça ou dor mas pela vida que escolho construir a partir delas.

A maioria das pessoas acredita que o autoconhecimento serve para compreender o passado. Na minha experiência, o verdadeiro propósito do autoconhecimento é devolver-nos a capacidade de criar o futuro.

“O autoconhecimento não existe para compreendermos eternamente o passado existe para ampliarmos o leque de escolhas disponíveis para o futuro.”
by Neuza

Chega um momento em que compreender já não chega, perceber porque sofremos não é suficiente e identificar o padrão é apenas o minimo. Pois é preciso decidir quem queremos ser depois de o padrão ser visto e essa é a parte que poucas pessoas falam.

Porque a dor dá-nos uma identidade, uma narrativa e uma explicação.

Mas a liberdade exige algo diferente.

Exige responsabilidade, escolha e construção.

Talvez seja por isso que algumas pessoas permanecem décadas a analisar a ferida enquanto outras começam lentamente a construir um novo castelo.

Não porque sofreram menos mas porque, a certa altura, deixaram de perguntar: “Porque é que isto me aconteceu?”

E começaram a perguntar: “Quem me quero tornar a partir daqui?”

A Diferença Entre Maturidade e Imaturidade Emocional

Ao longo dos anos comecei a observar uma diferença muito simples. Pessoas emocionalmente imaturas tendem a viver numa pergunta:

“Quando eles mudarem, eu fico bem.” Quando ele mudar. Quando ela perceber. Quando me pedirem desculpa. Quando me reconhecerem. Quando me escolherem.

E a vida fica suspensa. À espera.

Já a maturidade emocional nasce de uma pergunta diferente:

“Mesmo que isto nunca mude, o que vou fazer com a minha vida?”

É aqui que a energia deixa de estar focada na reparação do passado e regressa à construção do futuro.

A Pergunta Que Muda Tudo

Se chegaste até aqui, talvez a pergunta mais importante não seja:

Quem me escolhe? Quem me valida? Quem me reconhece?

Mas sim: Quem te estás a tornar?

Porque relacionamentos saudáveis não nascem quando encontramos alguém que carregue a nossa identidade. Nascem quando duas pessoas que já possuem uma identidade própria escolhem caminhar juntas. E é por isso que o verdadeiro trabalho nunca foi aprender a viver sem os outros.

O verdadeiro trabalho é aprender a não te perder dentro deles.

Se sentes que te reconheceste neste artigo, talvez não estejas a lidar apenas com um relacionamento difícil. Talvez estejas a reencontrar um padrão muito mais antigo. É precisamente esse tipo de padrão que exploro nas minhas sessões de Identity Reconstruction & Emotional Repatterning.

Não para te dizer quem és.

Mas para te ajudar a compreender quem te tornaste, quais as estratégias que desenvolveste para receber amor, pertença e validação, e como podes voltar a construir uma identidade sólida, livre e alinhada com quem realmente és.

Porque a liberdade emocional não começa quando encontramos a pessoa certa, começa quando deixamos de precisar que outra pessoa nos diga quem somos.

Durante muitos anos procurei compreender porque repetimos determinados padrões. Hoje acredito que a pergunta mais importante não é: “Porque é que isto me aconteceu?”, Nem sequer: “Porque é que continuo a repetir isto?”, Mas sim:

“Quem me estou a tornar através desta experiência?”

Porque talvez a vida nunca tenha sido sobre evitar a dor, mas sim sobre aprender a construir um castelo que continua de pé independentemente de quem entra ou sai pelos seus portões.

Como sei se perdi a minha identidade num relacionamento?

Uma das formas mais simples de perceber isto é fazeres uma pergunta desconfortável: “Se esta pessoa desaparecesse amanhã da minha vida, o que sobraria de mim?”
Se a resposta te provocar ansiedade, vazio ou confusão, talvez uma parte da tua identidade esteja excessivamente dependente desse relacionamento.
Outro sinal comum é quando o teu estado emocional depende constantemente da atenção, validação, aprovação ou presença dessa pessoa. Quando ela está bem contigo, sentes-te bem contigo. Quando se afasta, sentes que perdes valor.
O problema raramente é apenas a relação. Muitas vezes é a identidade que construímos à volta dela.

O que causa dependência emocional?

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a dependência emocional não nasce do amor.
Nasce da necessidade.
Geralmente surge quando procuramos num relacionamento aquilo que ainda não aprendemos a construir dentro de nós: segurança, pertença, validação, direção, identidade ou valor pessoal.
Os estilos de apego desenvolvidos durante a infância podem contribuir para este padrão, mas a dependência emocional também é alimentada pela falta de uma vida própria suficientemente sólida.
Quanto menos investimos no nosso castelo (nos nossos interesses, sonhos, propósito, amizades e crescimento pessoal) maior a tendência para pedir aos relacionamentos que preencham esse espaço.

Porque é tão difícil ultrapassar uma separação?

Porque raramente estamos apenas a perder uma pessoa. Estamos muitas vezes a perder uma rotina, um papel, uma visão de futuro e uma versão de nós próprios. É por isso que algumas pessoas continuam emocionalmente ligadas a um ex-parceiro durante anos, mesmo quando já não desejam verdadeiramente regressar à relação.
O que continua ativo não é necessariamente o amor.
É a identidade. Ultrapassar uma separação implica muitas vezes reconstruir partes de nós que deixaram de existir fora daquele relacionamento. E essa reconstrução pode ser mais desafiante do que o próprio desgosto amoroso.

Como reconstruir a minha identidade após um divórcio?

A maioria das pessoas tenta responder imediatamente à pergunta:
“O que faço agora?”
Mas talvez a pergunta mais importante seja:
“Quem me estou a tornar?”
Reconstruir uma identidade não começa por encontrar um novo parceiro, uma nova casa ou um novo objetivo. Começa por voltar a investir em ti.
Voltar a aprender. Voltar a explorar interesses esquecidos. Voltar a criar algo que seja apenas teu.
Voltar a construir um castelo que não dependa da presença de outra pessoa para permanecer de pé.
É precisamente por isso que o autoconhecimento é tão importante. Não para permanecermos presos ao passado, mas para ampliarmos o leque de escolhas disponíveis para o futuro.

É saudável viver apenas para os filhos?

Na maioria dos casos, não.
Embora muitas vezes seja apresentado como amor, viver exclusivamente para os filhos pode criar uma dinâmica de dependência emocional invisível.
Uma criança precisa de amor, presença, limites e segurança.
Mas não precisa de ser responsável pelo propósito da vida dos pais.
Quando um adulto abdica completamente da sua individualidade, dos seus sonhos, dos seus relacionamentos e dos seus projetos para viver apenas através dos filhos, a criança acaba frequentemente por carregar um peso que não lhe pertence. Uma das maiores provas de amor que um pai ou uma mãe pode dar a um filho é continuar a construir a sua própria vida.
Porque uma criança não precisa de um mártir. Precisa de um exemplo.

Como desenvolver uma identidade forte?

Uma identidade forte não nasce da perfeição nem da ausência de dúvidas. Nasce da relação que construímos connosco próprios.
Desenvolver uma identidade forte implica conhecer os teus valores, compreender os teus padrões, assumir responsabilidade pelas tuas escolhas e continuar a investir em quem estás a tornar-te.
Implica também deixar de construir a tua vida exclusivamente à volta de relacionamentos, papéis ou expectativas externas. Uma identidade forte não significa que deixas de amar os outros. Significa que deixas de precisar deles para saber quem és. E talvez essa seja uma das maiores formas de liberdade emocional que um ser humano pode alcançar.

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