Do Algarve ao Japão

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O que muda quando mudamos de contexto, e o que nunca muda dentro de nós

O Encanto e a Máscara

À primeira vista, o Japão é impecável.

  • Tudo funciona.
  • A limpeza é exímia.
  • A disciplina impressiona.

Mas por detrás das fotografias de templos ou das cerejeiras em flor, existe outra realidade: a taxa de suicídio que assombra famílias, a solidão que corrói os lares e a objetificação feminina que infantiliza mulheres.

Aqui, ser “forte” significa muitas vezes não mostrar fraqueza: sorrir em público, mesmo quando se chora em silêncio.
É a mesma filosofia que leva muitos a ficarem até ao fim no escritório, só para não serem os primeiros a sair. A aparência de dedicação pesa mais do que a saúde ou a verdade interior.

E eu própria reconheço esta tendência em mim: quantas vezes já insisti em mostrar que estava bem, que era resiliente, mesmo quando o que queria era admitir cansaço e pedir colo?

Sabes aquela sensação de sorrir por fora enquanto por dentro o coração está em silêncio?

  • Se já te aconteceu, lê a minha sugestão de exercício abaixo.
  • Se não, continua a ler o blog e segue para o próximo ponto — talvez encontres aí o que ressoa mais contigo.

Exercício: Desligar a Máscara

  1. Fecha os olhos e recorda um momento em que sentiste que estavas a usar uma “máscara” para mostrar perfeição. Não julgues, apenas observa.
  2. Imagina essa máscara à tua frente, com a forma, a cor e a textura que fizer sentido.
  3. Agora, tira a máscara suavemente e pousa-a no chão.
    Respira fundo e repara como o teu corpo se sente sem ela.
  4. Pergunta a ti mesmo: “Quem sou eu sem precisar desta máscara?”
  5. Deixa que uma palavra, uma imagem ou uma sensação surja.
    Isso é a tua verdade nua.

Podes repetir este exercício sempre que sentires que estás a encenar algo que não corresponde ao que realmente vives.

O Peso da Harmonia

Aqui, a wa ( a harmonia social) é lei.
Os japoneses pedem desculpa mesmo quando não têm culpa.
A prioridade é não destoar.
Parece bonito. Mas a que preço?

Há quem permaneça em relações que já não fazem sentido só para não magoar o outro. Há quem aceite ordens no trabalho sem questionar, porque “não se deve contrariar o chefe”.
No Japão, isto traduz-se na obsessão em não criar atrito… até que muitos deixam de saber o que realmente sentem.

E eu própria já senti isso: o impulso de calar a minha verdade para manter a paz.
Seja no silêncio depois de uma discussão em que não disse tudo, seja no sorriso educado quando o que mais me apetecia era gritar.
Naquele momento pareceu mais fácil… mas depois, sozinha, percebi que estava a trair-me.

Quando a harmonia é externa mas não interna, nasce o vazio.

Quantas vezes, na tua vida, já escolheste calar para evitar conflito?


E depois foste dormir com a tua própria verdade sufocada?

Libertar o Controlo dos que Ficam

Vir para o Japão também significou soltar o controlo sobre os que ficaram.

Relações prematuras que nos marcam mas que são testadas pelo tempo: algumas florescem, outras revelam que a intensidade inicial não resiste à distância ou à ausência de esforço mútuo.
E é aqui que percebemos que laços fortes não se medem pelo que é dito no auge da paixão, mas pelo que é sustentado na constância dos gestos.

O feminino, muitas vezes, deseja nutrir, segurar, dar colo.
O masculino, por sua vez, procura afirmar-se, conquistar, avançar. Quando estes 2 polos não estão em equilíbrio (seja dentro de nós ou na relação com o outro) nasce o desequilíbrio:
a mulher que dá até se esvaziar e o homem que foge ao peso da entrega.

E ao mesmo tempo, vivo a dificuldade de querer estar presente e escolher-me.

  • Escolher-me sem deixar de escolher o meu filho, que carrego sempre comigo no coração, mesmo quando o oceano nos separa.
  • Escolher amar sem me perder, abrir espaço sem carregar quem não quer caminhar.

Percebo que controlar é, na verdade, uma forma de medo:
medo de perder, medo de não ser suficiente, medo de ficar sozinha.
Mas soltar é confiar que o que é verdadeiro não precisa de correntes.

E tu, quantas vezes também tentaste controlar para não perder alguém, quando na verdade o que precisavas era libertar para não te perderes a ti?

Exercício: Shadow Work com base no Apego

  1. Identifica o padrão: pensa numa relação em que sentiste necessidade de controlar o outro para não o perder.
    Anota a situação.
  2. Reconhece o apego: observa se esse impulso vem de medo (apego ansioso), de afastamento (apego evitante) ou de necessidade de harmonia (apego ambivalente).
  3. Escreve a sombra: pergunta a ti mesmo: “O que temo que aconteça se eu deixar de controlar?”
    Escreve a primeira resposta sem censura.
  4. Transforma em escolha: fecha os olhos e imagina-te a abrir a mão, como se libertasses a pessoa ou a situação.
    Repete em voz baixa:
    • “Eu liberto o outro para me reencontrar a mim.”
    • “A minha força está em escolher-me.”
  5. Integra: observa o que surge no corpo depois deste ato simbólico.
    Respira fundo e deixa essa sensação assentar.

Este exercício ajuda a trazer à luz os medos escondidos do apego, transformando o controlo em consciência e escolha.

A Mulher como Criança

Na cultura japonesa, o ideal de beleza feminina é a aparência infantil.
Rosto arredondado, voz suave, gestos delicados. A cultura anime, aparentemente fofa e inocente, camufla algo mais profundo: a normalização de fantasias que refletem ignorância emocional e tendências para a objetificação.

Mas não precisamos de estar no Japão para reconhecer isto.
Também no Ocidente vemos mulheres reduzidas a estereótipos: a “boa menina” que não levanta a voz, a “mulher perfeita” que está sempre impecável, a “mãe dedicada” que se anula em nome da família.
São papéis socialmente aceites que, à primeira vista, parecem inofensivos, mas que aprisionam a essência feminina.

E eu própria já vivi esse peso: o de me calar para não ser “demasiado intensa”, o de suavizar a minha verdade para não parecer “difícil”, o de encaixar numa versão aceitável de mim.
Até perceber que cada vez que aceitava esse papel, estava a perder um pedaço da minha força.

Mas há também outra faceta em mim: a tendência de camaleão.
Na Índia, parecia indiana; no Japão, pareço japonesa. Não por negação da minha identidade, mas como estratégia natural de sociologia — uma forma de observar, compreender e pertencer temporariamente sem levantar barreiras.

No meu Human Design, tenho o Centro da Identidade (G) aberto. Isso significa que a minha forma de estar no mundo é naturalmente fluida: absorvo, reflito e espelho ambientes e pessoas.
É uma força, porque me permite transitar entre culturas e contextos com leveza. Mas também é um risco, porque se não estou consciente, posso perder-me nos papéis que visto.

A diferença está na consciência:
quando adapto para crescer, ganho;
quando adapto para caber, perco-me.

E tu? Em que áreas da tua vida também aceitas padrões que, no fundo, te diminuem, só porque são culturalmente aceites?

Disciplina: Entre a Luz e a Sombra

Treinar artes marciais no Japão ensinou-me muito mais do que técnica.
Vim até aqui para acrescentar novas ferramentas ao meu papel como coach, mas também para polir as que já existiam em mim.
Cada treino, cada queda, cada repetição mostra-me que disciplina sem liberdade emocional pode tornar-se prisão. Enquanto que disciplina consciente é libertadora. Porque quando o corpo sabe, a mente descansa.

Esta jornada é também uma busca de harmonizar o masculino dentro de mim sem perder a mulher feminina que adoro ser.

  • O masculino traz estrutura, foco, ação.
  • O feminino traz fluidez, intuição, sensibilidade.

Quando se equilibram, nasce a verdadeira soberania:
não ser refém de nenhum extremo, mas poder escolher em cada momento.

E aqui reside o segredo da força:
só somos fortes quando a força é uma escolha.
Uma pessoa que escolhe não se defender é muito diferente de uma pessoa inofensiva. Eu posso ter um masculino forte e ainda assim optar por não o usar. Isso não me torna fraca; torna-me soberana.

Exercício: Ancoragem
Fecha os olhos e imagina um momento em que equilibraste firmeza com suavidade, força com compaixão.
Respira fundo e deixa esse estado espalhar-se no corpo.
Esse equilíbrio pode ser o teu recurso sempre que precisares de agir com poder, sem perder a tua essência.

O que nunca muda

Do Algarve ao Japão, entre contrastes e descobertas, percebi que há algo que permanece: a essência.
O meu olhar que busca verdade.
A minha voz que não se cala.
A minha missão de guiar quem cruza o meu caminho.

E é aqui que a viagem se torna espiritual:
O contexto muda, mas a alma é sempre o espelho.

Como coach, eu já conhecia estes padrões: as máscaras sociais, a repressão das emoções, a fragilidade dos vínculos quando não há entrega real. Mas estar aqui mostra-me algo maior: não basta saber, é preciso viver. O Japão não me ensinou o que eu não sabia, apenas fez-me atravessar no corpo aquilo que tantas vezes transmito aos meus clientes.

E é essa vivência que dá força à minha voz e consistência à minha missão.

O Japão é belo e sombrio, como qualquer ser humano.
A sua cultura mostra-nos o poder da disciplina e o perigo do silêncio, a força da estética e a fragilidade da alma.

E tu, quando tudo muda à tua volta, o que é que em ti continua inabalável?

A tua viagem interior não precisa de esperar, mas, a minha agenda sim ✨
Há viagens que fazemos por fora: como atravessar meio mundo até ao Japão, e há viagens que fazemos por dentro. Se sentes que está a chegar o momento de soltar a máscara, integrar a tua sombra e alinhares-te com quem realmente és… a tua jornada pode começar agora.

A minha agenda de sessões individuais abre apenas em janeiro do próximo ano, mas já podes garantir o teu lugar na lista de espera.
Quem entra recebe prioridade nas vagas e ainda conteúdos exclusivos que vou partilhar até lá — para que a transformação comece antes mesmo de estarmos juntos em sessão.

Porque às vezes o primeiro passo não é uma sessão… é simplesmente dizer:

eu escolho-me.

One response to “Do Algarve ao Japão”

  1. MÁRIO D ROSADO avatar
    MÁRIO D ROSADO

    wonderful description of that experience, thanks Neuza 🤍

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